quarta-feira, 7 de julho de 2021

Eu sei que demora

Para um corpo estragar
Para um corpo realmente ficar ruim
E expelir só uma massa amarela fedorenta
Mas hoje, na estrada com minha mãe 
vi um homem de chinelos atravessar a rodovia cheia de carros
Nesse momento Eu dizia que penso que demora muito para um corpo se estragar ainda em vida
É preciso muita coca-cola, fritura, álcool, fumo
Ou só uma genética mesmo muito ruim
Mas eu também dizia
Enquanto via aquele homem de chinelos atravessar a avenida perigosa
Eu dizia que eu penso que a vida é ao mesmo tempo muito frágil 
Um fio tão fino e
fatal
como a possibilidade do tropeço desse homem de chinelos no meio da rodovia
 
Como a possibilidade de um homem erguer uma vara daquelas limpadoras de piscina para pegar uma peteca no tobogã e essa vara de metal nem estar tão perto mas perto o suficiente para puxar a energia de um fio desencapado no poste da rua e uma descarga de não sei quantos mil kilowatts eletrizar o corpo do seu pai no churrasco de família 
E sua mãe,
Que dirige esse carro em que você está
Ter socorrido ele.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Poliuretano / Poliuterino

Eu escrevi esse poema, Poliuretano, depois de um episódio traumático de quase asfixia por um incêndio no meu quarto, uma vela de citronela que esqueci acesa à noite. João tava lá na casa de Campinas, no quarto da Olívia no andar de cima, e desceu quando me ouviu abrindo todas as janelas. Fomos dormir 5h da manhã. Depois ele escreveu Poliuterino.


Poliuretano


Meu corpo coberto

Minha cama coberta

Meu corpo e minha cama cobertos de fuligem


Last night you guys almost found me dead in the plastic smoke

You guys almost found me dead last night

thank you João for saving me

from my mind

I saved myself from the smoke and

You saved me from myself


Chorar por detrás dos olhos, sim

A agonia, 

o grande estar-mudo

(chorar por detrás dos olhos)


Não quero acordar. Acordei,

tomei banho, limpei 

a fuligem nas narinas


Sei que seus olhos arderam, os meus também

(assim como o criado-mudo, derretendo lentamente, sono e silêncio)

Te dei íons para que eles parassem de doer e


Fiz comida,

como “Matou a família depois foi ao cinema”:

“Salvou-se do incêndio depois chamou os amigos para comer brigadeiro”.




Poliuterino


meu corpo coberto de novo

casa feminina acolhedora como útero

distante, e efêmero

nove meses em uma semana

e depois ficar sozinho

saudade eterna


me salvaram de mim mesmo

— hora de não enlouquecer! —

cuidado materno, química amniótica, íons

poção de sangue em cima do fogão

mulheres distantes dos úteros de onde saíram (mulherão da porra!)


fogo, transformação irreversível

mutações aleatórias

antropogênese, antropofagia

a concepção de um novo ser, a construção da identidade

noppera-bōs dançando, sincronizando os passos

macios, plásticos — homens não-líticos


sinestesia, memória

tai chi e música que transportam

choro de criança, choro e infância

REGRESSUS AD UTERUM

retorno ao conforto primitivo


the silence that's suddenly heard after the burning of a candle

you won’t see me you’ll only see that you can’t see very far

Reassemblage (1982), Trinh T. Minh-ha

Scarcely twenty years were enough to make two billion people define themselves as underdeveloped. I do not intend to speak about. Just speak near by. A film about what? A film on Senegal; but what in Senegal?


Reality is delicate. My irreality and imagination...are otherwise dull. The habit of imposing a meaning...to every single sign.


What I see is life looking at me.