quarta-feira, 22 de outubro de 2025

 A BALEIA (METÁFORA DO DESCASADO)

Dizem que há uma baleia na baixa-mar, encalhada.
Vamos lá vê-la.
Vamos ver se o nosso reduzido e desordenado ânimo
resite à imposição das suas escuras toneladas.
Vamos ver como chora mostrando as suas inábeis
barbatanas
que não nos podem oferecer uma flor
entre dois dedos.
Vamos pedir-lhe que, em troca, nos cante um lamento
com a sua famosa voz de soprano.
Vamos aprender que os animais de pele escorredia
acabam, no fim, por ficar sozinhos.
Vamos ver o agitado desespero da sua grande cauda
que bate na areia, que quer alcançar
águas mais profundas, navegáveis, onde se esteja bem
consigo mesmo.

E se já desencalhou com a maré alta e não estiver lá?
Então sentamo-nos na praia a contemplar o mar.
A metáfora do mar desolado
pode substituir a metáfora da baleia.


.
José Watanabe
(Peru, 1945 - 2007)
In "Espantar a Morte com Ritos Caseiros"

(Tradução de Luís Pedroso) 

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Remate de Males, Mário de Andrade

VIII
Gosto de estar a teu lado,
Sem brilho.
Tua presença é uma carne de peixe,
De resistência mansa e um branco
Ecoando azuis profundos.
Eu tenho liberdade em ti.
Anoiteço feito um bairro,
Sem brilho algum
Estamos no interior duma asa
Que fechou.